“É Sempre em Breve”

  • 06/01/2019
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“É Sempre em Breve”

Pré-tribulacionistas geralmente falam sobre a vinda de Jesus “em breve”. É interessante que os pré-tribulacionistas parecem ser o grupo principal, frequentemente o único grupo, que fala sobre a vinda de Cristo como algo que acontecerá em breve. Não obstante, ao fazerem essa afirmativa, os pré-tribulacionistas estão em boa companhia, porque o próprio Jesus repetidamente disse que a vinda dele seria “em breve”. Estas foram suas últimas palavras para a igreja (Ap 22.7,12,20).

As expressões “em breve” ou “próximo” em Apocalipse traduzem o substantivo grego tachos e o advérbio tachus, que aparecem oito vezes no livro de Apocalipse (1.1; 2.16; 3.11; 11.14; 22.6,7,12,20). De acordo com o léxico grego mais usado, ambas as expressões se referem a “um período de tempo muito próximo, com enfoque na velocidade de uma atividade ou acontecimento, rapidez, ligeireza, pressa”.[1] A expressão “próximo” também é usada em Apocalipse em referência à iminente vinda de Cristo.

Claramente, a vinda de Cristo será “em breve” e “próximo”. Isso é o que a Escritura diz. Mas o que foi que João e Jesus quiseram dizer em Apocalipse quando se referiram à vinda de Cristo desta forma? Essa promessa simples e esperançosa de Jesus tem sido interpretada de quatro modos principais.

Em Breve Significa Logo

A posição preterista é que a vinda de Jesus foi dentro de uns poucos anos depois da composição do Apocalipse. Os preteristas datam o Apocalipse de meados dos anos sessenta d.C. e creem que a vinda de Cristo ocorreu na destruição de Jerusalém, pelos romanos, no ano 70 d.C. Os preteristas creem que a expressão “em breve” em Apocalipse significa dentro de poucos anos. Esta é chave da visão preterista.

Entretanto, os preteristas encontram um obstáculo importante que é enfatizado pela colocação estratégica desses termos relativos ao tempo. Tanto “em breve” quanto “próximo” ocorrem no início de Apocalipse e novamente no final, dando a moldura ao conteúdo de todo o livro (1.1,3; 22.6,7,12,20). Esses termos relativos ao tempo também são enfatizados por sua repetição. Eles ocorrem um total de sete vezes nos capítulos iniciais e nos finais de Apocalipse.

Com esses termos servindo como apoio para todo o conteúdo profético de Apocalipse, seja qual for o significado que se dê a esses termos relativos ao tempo, este deve ser aplicado a todos os acontecimentos do livro. Vern Poythress observa o seguinte: “Mas 1.3 e 22.10 são como apoio, abarcando toda a profecia de Apocalipse. O cumprimento de todas as coisas, não somente de uma parte, está próximo”.[2] Assim, a interpretação preterista desses termos relativos ao tempo requereriam um cumprimento no ano 70 d.C. de todo o Apocalipse, inclusive 20.7–22.21, que os preteristas parciais interpretam como sendo em referência a acontecimentos escatológicos.[3] A argumentação deles aqui funciona contra eles mesmos. Thomas Ice observa essa contradição:

Apocalipse 22.6 é a passagem número 6 na lista de DeMar sobre os “indicadores de tempo” em Apocalipse: “O anjo me disse: ‘Estas palavras são dignas de confiança e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou o seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve (tachos) hão de acontecer’”. Em contraste, Gentry cita Apocalipse 20.7-9 como uma referência a uma segunda vinda ainda futura. Isso cria uma contradição dentro do estigma de preterismo de Gentry. Como Apocalipse 22.6 se refere a todo o livro de Apocalipse, seria impossível tomar tachos como uma referência ao ano 70 d.C. (como Genry faz) e, ao mesmo tempo, afirmar que Apocalipse 20.7-9 fala sobre a segunda vinda. Gentry deve ou adotar uma visão semelhante ao futurismo ou mudar para a visão preterista extrema, que entende todo o livro de Apocalipse como história passada e assim elimina qualquer segunda vinda e ressurreição futuras.[4]

Ice está correto em observar que uma interpretação consistente desses termos relativos ao tempo exige uma abordagem futurista ao Apocalipse ou então uma abordagem totalmente preterista. E como o preterismo total nega uma segunda vinda literal de Cristo e a futura ressurreição dos corpos, essa visão está fora da tábua da ortodoxia e não é uma opção legítima. Dessa forma, somos deixados com o futurismo como a única opção crível e consistente. Em resumo, a inconsistência da abordagem preterista parcial aos termos relativos ao tempo enfraquece a validade dessa visão.

Portanto, a visão preterista dos termos relativos ao tempo em Apocalipse deve ser rejeitada. Mas, se essa interpretação dos textos de tempo é inválida, como deve ser entendida? Se alguém adota a visão futurista de Apocalipse 4–22, como podem os acontecimentos tão remotamente futuros ser legitimamente descritos como “em breve” ou “à mão”? Existem três visões principais dos textos relativos ao tempo entre os futuristas.

Como e Não Quando

Alguns futuristas afirmam que tachos (traduzido por “em breve”, “próximo” ou “logo”) em Apocalipse denota a maneira ou a natureza qualitativa da vinda de Cristo, isto é, como ele virá, não quando ele virá, e deveria, portanto, ser traduzida por “logo” ou “subitamente”.[5] Em outras palavras, os acontecimentos virão “subitamente,” “logo”, ou “sem demora” uma vez que o tempo determinado chegue, e rapidamente seguirão seu curso uma vez que tenham começado.[6] Gramaticalmente, essa interpretação é aceitável. Todavia, existem dois pontos que favorecem a atribuição de um significado temporal para “em breve” (en tachei) em Apocalipse 1.1. Primeiro, lexicalmente, o léxico grego mais usado cita um significado temporal (“logo, dentro de pouco tempo”) para en tachei em Apocalipse 1.1 e 22.6.[7]

Segundo, as palavras “porque o tempo está próximo” ocorrem em apenas dois versículos mais adiante, em Apocalipse 1.3.[8] De acordo com o léxico grego mais usado, “próximo” (engus), em Apocalipse 1.3, denota “estar perto em um ponto no tempo, próximo”.[9] Como o termo “próximo” em Apocalipse 1.3 traz um significado temporal, parece mais consistente contextualmente traduzir “em breve” em Apocalipse 1.1 de maneira temporal também.

O Tempo de Acordo com o Ponto de Vista de Deus

Um entendimento comum de “em breve” ou “próximo” em Apocalipse é que o autor está apresentando o tempo de acordo com o programa de Deus, não do homem. O apoio para essa visão é retirado de 2Pedro 3.8, que diz: “Não se esqueçam disto, amados: para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia”. Proponentes dessa visão observam que Deus não é limitado em sua consideração do tempo da maneira que o homem é.[10] Embora essa visão poderia ser parte do significado desejado, não significa que seja uma explicação satisfatória em si dos termos usados em Apocalipse. Parece duvidoso que um leitor fizesse naturalmente uma conexão entre a expressão “em breve” em Apocalipse e uma passagem como 2Pedro 2.8.

Iminência

A visão preferida é que os termos “em breve” e “próximo” em Apocalipse pressupõem o ponto de vista profético do autor e não significam necessariamente que os acontecimentos tinham que ocorrer dentro de uns poucos anos a partir do tempo em que o Apocalipse foi escrito. Os autores do Novo Testamento descrevem consistentemente esta era atual, ou o tempo entre as duas vindas, como “os últimos tempos”, “os últimos dias”, “os tempos do fim”.[11] Essa atitude está expressa em 1João 2.18, onde a era presente é designada como “a última hora”.[12] Isso significa que “os últimos dias”, ou até mesmo “a última hora”, estão acontecendo por mais de 1.900 anos. A expressão usada em 1João 2.18 é especialmente significativa porque teve sua origem no mesmo autor do Apocalipse e proporciona um discernimento mais profundo ao ponto de vista profético do apóstolo João.

O último desses últimos dias é sempre iminente ou imediato. Como nenhum homem conhece o programa do tempo de Deus, o tempo do cumprimento está sempre “à mão”. Esses acontecimentos estão perto uma vez que são os próximos acontecimentos no calendário profético de Deus. Há uma proximidade do tempo, um sentido de ser o que vai acontecer a seguir, de estar à mão.[13] Como Thomas observa: “O propósito de en tachei é ensinar a iminência dos acontecimentos preditos, e não estabelecer um limite de tempo dentro do qual eles devem ocorrer”.[14] A iminência desses acontecimentos, enfatizada em Apocalipse do seu princípio até o seu final, chama cada geração a ter uma atitude de expectativa e prontidão.[15] A expectativa iminente e a necessidade da prontidão são expressas por Jesus repetidamente no discurso do monte das Oliveiras (Mt 24.36,42,44; 25.10-13).

A primeira carta de Pedro diz: “O fim de todas as coisas está próximo. Portanto, sejam criteriosos e estejam alertas; dediquem-se à oração” (4.7). Esse é um texto do Novo Testamento que usa a linguagem de iminência para chamar o leitor a um sentido de expectativa, motivação e responsabilidade.[16] Em Romanos 16.20, Paulo diz: “Em breve o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês”.

Quando os termos “em breve” ou “próximo” em Apocalipse são entendidos à luz do ponto de vista profético do autor e a natureza de toda a era da igreja no Novo Testamento é entendida como a “última hora”, a melhor interpretação é que eles se referem ao iminente ou qualquer um dos acontecimentos do final dos tempos e da vinda de Cristo.

No livro de C. S. Lewis, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Aslam, o leão que é a figura de Cristo na história, diz para Lúcia que ele terá que ir embora. Ele a conforta, dizendo: “Não fique tão triste. Em breve nos encontraremos novamente”.

Lúcia, preocupada pensando em quando ela o verá novamente, pergunta: “Por favor, Aslam, o que é que você chama de breve?”.

E Aslam responde: “Eu chamo todos os tempos de em breve”.[17]

A escatologia de Lewis está correta nesse ponto. Jesus em breve voltará – e todos os tempos são em breve. O final dos tempos pode chegar a qualquer momento.

Que a esperança da sua vinda “em breve” cause um impacto na maneira que vivemos todos os dias.

Pre-Trib Perspectives

Dr. Mark Hitchcock

Notas

  1. Frederick W. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament and other Early Christian Literature, 3ª ed. (Chicago: The University of Chicago Press, 2000), p. 992–93.
  2. Vern S. Poythress, The Returning King: A Guide to the Book of Revelation, (Phillipsburg, NJ: P & R Publishing, 2000), p. 34.
  3. Kenneth L. Gentry Jr., He Shall Have Dominion: A Postmillennial Eschatology, (Tyler, TX: Institute for Christian Economics, 1992), p. 254, 276, 418.
  4. Tomas Ice, “Preterist ‘Time Texts’”, p. 105.
  5. John F. Walvoord, The Revelation of Jesus Christ, (Chicago: Moody Press, 1966), p. 35.
  6. Walvoord, Revelation, p. 35.
  7. Danker, Greek-English Lexicon, p. 993.
  8. Robert L. Thomas, Revelation 1-7: An Exegetical Commentary, (Chicago: Moody Press, 1992), p. 55.
  9. Danker, Greek-English Lexicon, p. 271.
  10. Thomas, Revelation 1–7, p. 55–56.
  11. G. K. Beale, “Eschatology”, in Dictionary of the Later New Testament & Its Development, ed. Ralph P. Martin e Peter H. Davids (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997), p. 331.
  12. W. Hall Harris observa que a expressão “a minha hora” [ou “a sua (de Jesus) hora”] pode se referir a um período de tempo inteiro desde logo antes da sua crucificação até seu retorno para o Pai (Jo 2.4; 7.30; 8.20; 12.23; 12.27; 13.1; 17.1). Harris relaciona esse tempo ao estágio final da história entre os dois adventos de Cristo. W. Hall Harris III, 1, 2, 3 John: Comfort and Counsel for a Church in Crisis, (Dallas: Biblical Studies Press, 2003), p. 104–5.
  13. William R. Newell, The Book of the Revelation, (Chicago: Moody Press, 1935), p. 362.
  14. Thomas, Revelation 1–7, p. 56.
  15. J. A. Seiss, The Apocalypse: Lectures on the Book of Revelation, 6ª ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1966), p. 23.
  16. Grant R. Osborne, Revelation, Baker Exegetical Commentary on the New Testament, ed. Moises Silva (Grand Rapids, IL: Baker Academic, 2002), p. 55.
  17. C. S. Lewis, The Voyage of the “Dawn Treader”, (Nova York: Harper Trophy, 2000), p. 162.

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